lapso de inspiração buarquiana/duo com Chico
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I
Quando eu sair daqui, vamos nos casar no nosso sonhado bairro cinza. Lá, você pode morar naquele sobrado colorido e feliz que destoava de tudo e de todos, como sempre fizemos em nossa vida. E se o bairro não for mais o mesmo, providenciarei um sobrado em San Telmo, para que desças todo final de tarde e saia a caminhar. E se faltar luz elétrica, providenciarei um gerador para você ver televisão. E você não vai prestar atenção em mim ao ver televisão.
Porque no sobrado você cuidará de mim e mais ninguém, de maneira que eu fique completamente bom. E plantaremos árvores, e escreveremos livros, e se Deus quiser ainda criaremos filhos nas terras que sonhou. Lá em casa como em todas as boas casas, na presença de empregados os assuntos da família serão ditos em francês. Se bem que para você até pedir o sal já é assunto de família.
Quando eu sair daqui, vou te levar pra ver o circo que é a vida, mesmo que não gostes de circo e eu de vida. Ou é ao contrário, não evoco.
E plantaremos árvores, e escreveremos livros, e se Deus quiser ainda criaremos filhos nas terras que sonhou.
Estou pensando alto para que você me escute.
II
Quando eu sair daqui, beberemos vinho barato pelas ruas de Madrid. Lá, você poderá praticar todo castelhano que não sei hablar. E você rirá de mim porque eu não entenderei nada do que vocês conversam. E eu rirei porque você rirá de mim porque eu não entenderei nada do que vocês conversam.
E cantaremos Fito Paez.
Quando eu sair daqui, no nosso sobrado no bairro cinza ou em San Telmo, não recordo, você cuidará das plantas do nosso jardim.
E quando eu me perder pela cidade você saberá compreender. Quando eu me perder pela cidade, você saberá que eu saí para matar ou pra chorar. E voltarei para casa fumando cigarros sem querer. Você sabe, há coisas que me ajudam a viver.
III
Você está aí? Que bom. Pra você pode não arder mas...feche um pouco a persiana, a luz da manhã irrita os meus olhos claros. Aonde eu estava?
IV
Você sabe o que eu quero quando sair daqui. E estou prestes a sair. Quando eu sair daqui, vou me deliciar nos teus braços bronzeados, na tua pele que nem no maior rigor do inverno fica clara. E seremos feijão e arroz. E seremos um só em um só corpo. Mas calma, eu preciso sair daqui.
Eu sei que te aborreço. Eu sei que está cansada. Vou te contar um segredo. Quando vi você pela primeira vez, na frente do banheiro, olhei nos teus olhos, lembra? Estou sem forças para continuar. Me dê a mão e me sorria.
V
Oi? Claro, nem todos, mas dediquei muitos a você. Alguns até me escondi, disse que quem escrevia se chamava Leonardo. Está aqui, você pode ver muito bem.
VI
Para eu sair daqui, você tem que sair daqui.
E seremos livres. E seremos felizes, sem prestar contas a ninguém. E aí sim, te levarei para morar no sobrado cinza que minha família construiu. E lá em Botafogo, você poderá trabalhar tranquilamente, há muitas casas deste ramo pelo aterro. Mas se o bairro não for mais o mesmo, providenciarei um apartamento em Ipanema, para que desças todo final de tarde e saia a caminhar. Porque no Rio de Janeiro eu lhe cuidarei como ninguém. E plantaremos árvores, e escreveremos livros, e se Deus quiser ainda criaremos filhos nas terras que sonhou.
No Rio de Janeiro viveremos felizes.
Quando eu sair daqui, vou me deliciar nos teus braços bronzeados, na tua pele que nem no maior rigor do inverno fica clara. E seremos feijão e arroz.
É muita morfina, acho que estou um pouco assustado.
VII
Não fosse você ter me visitado hoje à tarde, a segunda-feira ia ser uma merda. Não produzi, dormi em horários errados e ameaço a terça-feira e a semana. Justamente a minha semana de recuperação, a semana da saúde. Você sabe, dormir e se alimentar bem, acordar cedo e essas coisas nos deixam fortes e imponentes, o que você precisa. Quero chegar bem de saúde ao importante baile. No baile, quero que vista roupa preta para que faça contraponto com a tua pele branca do vitiligo inverno. Saia e volte quarta-feira. Agora, só preciso de descanso.
VIII
Já são duas e lá vai fumaça. Há sempre uma expectativa que me impede de cair no sono. É a mão que me sustém pelos louros cabelos. Até eu topar na porta de um pensamento oco, que me tragará para as profundezas, onde costumo sonhar em preto-e-branco. A memória é deveras um pandemônio, mas está tudo lá dentro, depois de fuçar um pouco o dono é capaz de encontrar todas as coisas. E qualquer coisa que eu recorde agora, vai doer. A memória é uma vasta ferida.
IX
Eu por mim sonhava com você em todas as cores. Também acho uma delícia quando você esquece os olhos em cima dos meus.
Se soubessse como gosto das suas cheganças à tarde, você chegaria correndo todo dia.
X
Zê ipsilon dê quinhentos e setenta e um. Rádio Guaíba éfe eme estéreo. Porto Alegre. Cento e um vírgula três megahertz. Classe especial para quem quer o melhor. Aumente o volume que eu vou dormir o sono eterno.